Dez de julho

09:34:00



Era terça, dia dez, em uma tarde de julho, na época as coisas eram mais baratas do que são agora, e eu pensei que íamos na sorveteria da esquina, então pedi minha mãe uns trocados - não queria que ele pagasse tudo, até porque odeio depender das pessoas -, me arrumei, e considerando o fato de que meu nervosismo tinha tomado conta de mim, fui para a porta uns trinta minutos antes do horário combinado para aguarda-lo. E pontualmente ele chegou, com seus cabelos loiros e olhos verdes, timidamente me conquistando com seu sorriso, o mesmo que me encantou desde a primeira vez que o vi. Aquele frio na barriga que tanto desejei, estava sentindo naquele momento.

Fomos tomar o sorvete combinado, porém em outro lugar mais longe. No caminho conversávamos, e a cada passo eu tinha certeza que era ali que eu queria estar. Daquela tarde eu me recordo de cada suspiro, de cada pensamento, me lembro de olhar para ele e pensar "caramba, é ele!". Falamos de nossos problemas com nossos pais, ele me contou de sua vida, eu contei da minha. Uma tarde inteira se passou tão rápido, e eu poderia ficar ali para sempre, se ele estivesse comigo. 

Quando nos demos conta, já estava escurecendo, e decidimos voltar. Fomos para a igreja juntos, pela primeira vez ele estava sentado ao meu lado. E eu vibrando por ele estar ali. Naquela noite eu agradeci a Deus, primeiramente por que quando eu o procurei ele estava me ouvindo, segundo porque ele não permitiu que eu desistisse, terceiro por que eu tinha encontrado alguém, alguém por quem eu estava completamente apaixonada.

Durante aquele dia inteiro eu me perguntava o porque de ele ainda não ter me beijado, desejei aquilo a cada palavra que ele dizia, a cada olhar, a cada segundo que se passava. Após sairmos da igreja, fomos até minha casa, depois de mais conversas, ele decidiu ir para casa. Fomos até o portão, e foi quando ele me abraçou.

Deus, como aquilo foi bom. Meu coração disparou, aquele frio na barriga voltou e eu fiquei me perguntando se eu iria sobreviver a aquele turbilhão de emoções. Ficamos abraçados por um tempo. Foi quando aconteceu... nossos rostos deslizaram um pelo outro, até que nossos lábios se encontraram. Aquela cena de filme, onde duas pessoas se conhecem e se beijam pela primeira vez, foi assim que me senti, eu tinha encontrado meu príncipe, eu e ele eramos os protagonistas de uma história que Deus escreveu, era uma história exclusiva nossa.

Caramba! Aquele beijo... Eu desejo que todos ao menos um dia, por algum segundo, sintam o que eu senti naquele momento. Eu desejei que o tempo parasse, para que aquilo nunca acabasse. Desejei com todas minhas forças ter ele ao meu lado para sempre, sem se importar com o resto, porque a unica coisa que eu me importava naquele momento, era ele. Não era uma coisa física, ia bem mais além, era espiritual, como se nossas almas se completassem. A conexão que existiu entre nós, não era algo que se via em qualquer esquina. O sentimento era muito além de um simples "gostar". Ele me completou, não só naquele instante, mas a cada dia que se passou, mesmo estando longe, ele me completou. Talvez fossemos jovens demais para sentir algo assim, mas sentimos - eu digo no plural pois sei que ele também -, era como tudo contribuísse para que aquele momento acontecesse, era como se o céu estivesse em festa, porque finalmente havia chegado o dia. Dez de julho, foi o dia em que minha vida começou a ter sentido, foi o dia em que eu soube que de tudo que eu acreditava, nada era verdade. Que a unica verdade era ele.

Ele que gostava de rock, eu de sertanejo. Eu gostava de sair, e ele fazia o tipo caseiro. Era todo certo e eu toda errada.  Éramos totalmente diferentes, e talvez seja por isso que - mesmo depois de quatro anos - nos completamos até hoje.




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